quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Orixá do Conhecimento – Pai Oxóssi – Mãe Obá

O conhecimento é a terceira vibração ou a terceira linha de Umbanda onde se encontram “Pai Oxóssi” e “Mãe Obá”.

Oxóssi é universal, amparador, sustentador e Obá é cósmica na linha do conhecimento, ou seja, reparadora dos desvios no campo do conhecimento.

Existem muitas maneiras de interpretar as sete linhas de Umbanda, cada autor  coloca as sete linhas de maneira diferente.

As sete linhas de Umbanda são as sete vibrações de Deus, esta é a nossa leitura, nossa interpretação que não está invalidando nenhuma outra leitura, mas que está aqui ajudando a clarear, ajudando a entender outras formas de leitura sobre as próprias sete linhas de Umbanda. (Alexandre Cumino)

A primeira linha, vibração é a “fé”, sem fé não existe nada. A segunda é o amor, pois sem amor não há sentido de se ter fé em Deus.

Numa religião onde não existe o amor, tudo é frio, vazio.

 É muito estranho pregar ou ensinar que “deve-se amar ao próximo como a si mesmo” e ao mesmo tempo só reconhecer Deus para os adeptos de uma mesma religião, é muito estranho ensinar “ame ao próximo como a si mesmo” e pregar o ódio ou o preconceito para quem não está dentro do mesmo Templo, todos são filhos de Deus, não há diferença de religião para Deus, quem faz as religiões são os homens, inspirados ou não, criam as religiões.

 A Umbanda tem um marco, esse marco é um homem, Zélio Fernandino de Moraes e por mais que tenha incorporado um espírito que é o Caboclo das Sete Encruzilhadas, e que a Umbanda tenha vindo do astral, de Deus e dos Orixás, se não houver um encarnado para fazer o trabalho não se estabelece uma religião.

A religião é do mundo material, antropológico, social e Deus está acima, inclusive das religiões. Deus é maior do que as religiões e por meio das religiões buscamos esse algo maior, que transcende as religiões.

Como pensar que Deus, que é maior do que as religiões, que transcende as religiões, pode caber, pode estar enlatado, encaixotado, enquadrado, ou rotulado, pode estar contido apenas dentro da minha religião? É falta de amor. Porque o amor de fato não vê a cor, o amor não vê a raça, o amor não vê o credo, “O amor é cego”, porque o amor não vê, ele sente.

O amor transcende a visão, mas usa a visão para se enriquecer e não para se empobrecer porque por meio da visão o amor trabalha o belo, o agradável. Aquele que tem olhos de amor, quando olha para o outro, sempre lhe será belo, sempre lhe será agradável. É dito que Jesus não via defeito nas pessoas porque Ele não os tinha.

Todos os defeitos que eu vejo em alguém, só os vejo porque eu tenho os
mesmos defeitos e estou me identificando e quando eu não tenho esses defeitos isso não me incomoda, eu sou indiferente.

 Quando os olhos são amorosos, a pessoa cuida de o pior ser humano do mundo como se fosse o melhor porque não vê os defeitos, só vê a alma, o espírito.

O conhecimento diz respeito ao estudo.

O conhecimento vem depois do amor nas sete linhas de Umbanda, por quê?

 Porque aquilo que eu estudo sem amor não vai me levar a lugar algum.

Quando falamos do amor, dizemos: o que adianta você ser um médico se você não ama a medicina? É um médico medíocre. O que adianta ser um advogado se você não ama defender os direitos do ser humano? É um advogado medíocre. Se for uma trabalhadora do lar que não ama cuidar do lar, ela é medíocre para fazer uma limpeza ou todas as tarefas do lar.

Há de se amar o que você tem e o que você faz e há de se ter amor pelo conhecimento.

 O que é que me impele ao conhecimento? A vontade de adquirir conhecimento, essa vontade de adquirir conhecimento também é amor. Porque eu quero estudar medicina, “estudar” é conhecimento, “quero estudar: medicina” porque tenho amor.

Por que eu quero adquirir mais conhecimentos sobre a Umbanda?

Porque eu tenho amor pela Umbanda. Não existe amor sem fé. E esse conhecimento para que eu me aprofunde nele, é preciso que eu queira que eu ame. Por que é que eu fico ávido por leitura, por saber? Porque tenho amor.
 Aquele que estuda apenas para ser mais do que o outro, aquele que estuda só para dizer que é melhor do que o outro, esse é arrogante.

 E o arrogante não está no amor, o conhecimento do arrogante é um conhecimento de vaidade, é um conhecimento que não leva a nada, e ao mesmo tempo nunca vai levar aos lugares que o amor leva.

Essa é a ordem: “fé, amor e conhecimento”, terceira via, terceiro sentido da vida, terceira linha, terceira irradiação, depois entra a “justiça”, por que nessa ordem? Porque sem conhecimento não se aplica justiça.

Depois vem a lei, justiça e lei são entrelaçadas porque sem justiça não se faz lei. Como fazer a lei, colocar a ordem se você não tem um senso de justiça?

 Sem amor, conhecimento, justiça e lei não há evolução, crescimento, transformação e não se gera nada. Então, aí estão os sete sentidos, existe ordem e razão de ser.

A terceira linha, terceira vibração, o conhecimento está em sintonia com o elemento vegetal. A força do conhecimento é uma força expansora, onde estão os Orixás: Oxóssi e Obá – “Oxóssi é expansor”, “Obá é concentradora” – Oxóssi é o próprio vegetal, ele é o caçador – caçador é aquele que vai buscar, ele é o “senhor das matas”, “senhor de todo Reino Vegetal”. Existem outros Orixás vegetais? Existem, Ossain que é o “senhor das folhas”, é vegetal. Não tem Ossain na Umbanda?

 Não existem Orixás de Umbanda, qual Orixá não é da Umbanda?

 Existe sim qual Orixá você conhece, cultua, e qual Orixá você não conhece e não cultua.

Se você conhece “Ossain”, você pode cultuar Ossain, pode ter devoção por Ossain que é o “senhor das folhas”. Mas, em qual linha de Umbanda está Ossain? Só tem quatorze? Quatorze Orixás?” Não, você tem tantos Orixás quantos você conhecer. “Mas, ué? Aqui a gente só tem sete linhas e quatorze Orixás, como é que fica isso?”

Fica que os outros Orixás estão também nessas sete linhas, basta você encontrar onde eles se encaixam.

“Ossain”, que também é vegetal, está na mesma vibração de Oxóssi. “Aroni” também é vegetal está na vibração de Oxóssi. “Logunedeque” é vegetal com amor, que é filho de Oxóssi com Oxum, ele é um intermediário do conhecimento para o amor.

 “Odeque” também é caçador, também está na linha vegetal.

Existem centenas de Orixás, mas, muitos são os mesmos Orixás com outro nome como, por exemplo, Omulu é o “senhor da morte”, “Iku” é a morte, está no mesmo campo.

Conhecimento é algo vasto e conhecimento enquanto linha de Umbanda, sentido da vida, de vibração, tem que ser algo que não fique limitado apenas a dizer: “Ah conhecimento é a capacidade de pegar um livro ler, estudar, fazer um curso, alguma coisa assim”. Não. “Conhecimento” aqui é: a linha vegetal, a linha da expansão.

A capacidade de expansão está diretamente ligada ao conhecimento. Essa força do conhecimento é a força de Oxóssi, é a força de ir buscar, é força do caçador.

Na mitologia Nagô Yorubá, Oxóssi é irmão de Ogum, em algumas lendas aparecem sempre juntos: Oxóssi, Ogum e Exu. E numa estrutura tribal – imaginemos então essa estrutura – uma tribo no meio de uma floresta que é um meio de relacionamento íntimo entre o Orixá Oxóssi, as matas e caçador. Há uma relação com o índio muito forte.

Imagine uma sociedade tribal, você tem uma tribo no meio de uma mata, as pessoas dessa tribo podem pescar, elas podem caçar, plantar e ali naquela cultura então você tem a figura do caçador dentro de uma tribo. Quem é o caçador? É aquele que sai da tribo para buscar recursos, esse é o caçador.

Quando a gente fala do “caçador” tem que imaginar em que contexto de cultura existe a figura do caçador. Porque temos que trazer isso para o dia de hoje. Quem é o caçador hoje em dia? Quem é o caçador na nossa sociedade? Então, é para cá que se tem que trazer esse contexto, porque tem que atualizar o perfil do arquétipo, o padrão mitológico e os atributos e atribuições do Orixá, da divindade na sua vida.

 O Orixá Oxóssi é caçador.

 O que é um caçador? O que representava um caçador dentro de uma cultura antiga, dentro de uma cultura tribal? É aquele que saia da tribo para buscar recursos, esse caçador não saia sozinho. Quando você entra numa mata, vai alguém a frente abrindo caminho, abrindo uma picada, esse que vai à frente abrindo caminho é Ogum.

São vários batedores abrindo caminho onde não há caminho para caminhar.

Vão entrando para saber se há inimigos, se existe perigo, esse é Exu. E há aquele que vai explorando, que vai identificando, que vai pegando, buscando, colhendo, caçando, esse é Oxóssi. Então, Oxóssi é o caçador, é aquele que sai para buscar algo.

Ele sai em busca do alimento, Oxóssi dá essa força. Oxóssi dá para você a força de caçador, de buscar o que você precisa. Por isso a energia de Oxóssi traz fartura para a mesa.

Há uma relação entre Oxossi e o alimento, a fartura, o trabalho, com o trazer o alimento para a mesa, com o não faltar alimento, fazemos oferenda para Oxóssi para que não falte alimento, para que não falte o que comer. Que relação é essa? Como se estabelece essa relação na sua vida com Oxossi? Os Orixás nos trazem padrões emocionais, padrões psicológicos.

Oxóssi traz a força de ir buscar, de você se tornar um caçador e ir buscar o que você precisa, você é caçador todos os dias quando você sai para trabalhar, você é caçador todos os dias quando você sai para buscar algo que a sua família precisa, você é caçador quando você sai em busca daquilo que você está precisando, você é um caçador nesse sentido.

O caçador naquele contexto de tribo, que vai buscar o alimento, é esse caçador que na volta para a tribo traz a informação, traz o conhecimento.

Se essa tribo está numa região escassa de alimento, de animais, de caça, se eles estão plantando e ali não dá, se a tribo precisa mudar de lugar, é o caçador que sai da tribo e traz a informação para onde essa tribo vai, é o caçador que traz a boa nova, é o caçador que traz a notícia, é o caçador que conta como é o mundo lá fora.

O caçador é um comunicador, caçador é um falador, ele é falante, ele é expressivo, ele é comunicativo, é praticamente um geminiano, o caçador, o comunicador. Se estivesse falando em Planetas, ele tem a energia de Mercúrio, de informação. E não importa qual é o teu signo porque não importa de qual signo você seja você pode ter essa força de Mercúrio.

O caçador Oxóssi é amparador da força de caça, da força de buscar e no momento em que você está comunicando, você saiu para caçar alimento, informação, cultura, novidade, você saiu para caçar, para buscar, quando você volta, você está então comunicando, você está compartilhando, multiplicando informação, alimento, etc.

Oxóssi tem essa qualidade multiplicadora por isso ele traz a fartura, traz o pão, ele tem uma relação forte com agricultura também, não com a ferramenta da agricultura porque a ferramenta é de Ogum.

 Ogum foi aquele que descobriu as ferramentas, a forja, o aço, o ferro, mas, Oxóssi é o agricultor no sentido daquele que planta, daquele que faz dar frutos, daquele que faz multiplicar o alimento nesse sentido.

 Quando se traz a informação, o conhecimento, o alimento, você está multiplicando, você está compartilhando, você está no campo de Oxóssi, você está expandindo, você está sendo um expansor, qualidade de Oxóssi. Daí a qualidade dos filhos de Oxóssi que são comunicativos, às vezes diz-se que eles são quietos, recolhidos, acanhados.

Não. Filhos de Oxossi/caçador são falantes, comunicativos, não costumam ser agressivos, mas são falantes, comunicadores, se comunicam bem. No aspecto positivo é um trabalhador, é alguém que põe a mão na massa, que executa que não tem preguiça, é rapidinho, alguém que às vezes faz muitas coisas as mesmo tempo. Por isso filho de Oxóssi pode ter tendência a ser um pouco bagunçado, pois não consegue colocar ordem nas coisas e a ordem é de Ogum.

 Oxóssi é expansor, portanto, falar, dar aula, comunicar, passar informação isso é de Oxóssi, esse é o campo do conhecimento.

A energia vegetal se vê nas árvores, é uma energia expansora, a árvore tem raiz que vai se expandindo e um tronco, tem os galhos, as folhas e isso se expandem para cima. Quando você pega uma folha, você tem um caulezinho e têm várias ramificações se abrindo numa folha, essa é a energia do conhecimento.

É fundamental o conhecimento para que haja entendimento.

Nossos pais nos orientam, mas só a vida ensina. Porque as maiores lições que a gente aprende são lições que a vida dá de uma forma prática, isso também é conhecimento.

Conhecimento não é sabedoria.

Conhecimento é informação, sabedoria é a sua capacidade de lidar com isso.

Se você sabe utilizar bem o seu conhecimento, você é sábio. Sábio é aquela pessoa que tem maturidade, por isso o ancião que viveu uma vida bem vivida, aquele que aprende com a vida, ele se torna um sábio.

O conhecimento é importante, o conhecimento teórico, o conhecimento que vem nos livros é um conhecimento importante, mas o mais importante é “aprender com a vida”. Quando a gente chega num Terreiro de Umbanda como geralmente nós chegamos, como consulentes, estamos em busca de conhecimento, informação, enfim, às vezes, se chega só para pedir coisas.

Mas, ali nós estamos aprendendo com o Guia que está incorporado num médium naquela corrente, o Caboclo, o Preto Velho, o Baiano, o Boiadeiro, eles estão incorporados passando conhecimento para a gente, eles passam conhecimento. No momento em que você mediunicamente avança para se tornar um médium na corrente. Então, você começa a aprender com os Guias do dirigente, você começa a aprender o que aquele ambiente tem a ensinar.

Com o desenvolvimento mediúnico, você começa a aprender de forma direta sobre a vida, que é o mais importante, podemos estudar a Umbanda, mas o mais importante é o que a Umbanda tem a ensinar sobre a vida, o quanto esse conhecimento é válido para me tornar uma pessoa melhor.

Esse conhecimento tem maior valor, tem mais valia, tanto quanto ele pode me transformar numa pessoa melhor, o quanto ele faz de mim alguém mais maduro, a valia é o que eu faço com esse conhecimento, qual a qualidade desse conhecimento. E ali no Terreiro de Umbanda então, como consulente as necessidades são básicas, como médium a gente está aprendendo com o Guia do dirigente até que nós chegamos num ponto que por meio da mediunidade começamos a aprender com os Guias.

O objetivo é que você consiga ter os seus Guias como seus mestres.

Eles vão nos orientando e vão nos guiando pelos nossos caminhos, mas o objetivo maior da espiritualidade é nos dar informação e conhecimento para que cada um de nós aprenda a tornar-se mestre de si mesmo. E você só se torna mestre de si mesmo quando você começa a aprender com a vida, quando a gente começa a entender que todas as situações da vida só vêm para nos dar uma lição, para que a gente possa aprender alguma coisa.

Tudo o que acontece na nossa vida de bom ou de ruim acontece para que se aprenda algo, nós também devemos buscar aprender com cada situação da vida, com cada dor, com cada sofrimento, com cada alegria e isso só é possível de fato, quando a gente busca o conhecimento não apenas fora, mas dentro de nós, isso se chama “autoconhecimento”.

Existem inúmeros livros e literatura sobre autoconhecimento, que a lição maior do autoconhecimento é “tornar-se mestre de si mesmo”, a lição maior é: “aprender com a vida”. E a única maneira de aprender com a vida é ter um olhar atento para o que acontece dentro de você em cada situação da vida, o que é que se pode aprender em cada situação da vida. Porque quando nós não temos apego, quando nós não temos vícios, quando nós não temos desequilíbrios, então a dor quase não existe.

O conhecimento é uma ferramenta incrível para que a gente possa nos tornar alguém melhor.

Eu me torno alguém melhor quando eu estudo Matemática, Geografia, quando eu estudo línguas, quando eu estudo História, vou me tornando alguém que está crescendo no conhecimento, está crescendo na informação, mas eu me torno um ser humano melhor quando eu estou estudando acerca do ser humano, da vida, das relações, quando estou estudando os meus sentimentos, as minhas reações, a minha forma e a arte de se relacionar no mundo, assim estou colocando o conhecimento a favor do crescimento pessoal.

Quando falamos acima, sobre o Amor, falamos sobre dores, traumas, ciúmes, desequilíbrio e em nós existem muitas frustrações, existe em nós muitos sentimentos reprimidos, mal trabalhados, isso gera um desconforto, gera às vezes uma raiva reprimida e que sai de nós no momento errado, igual aquele exemplo do ciúme que a pessoa não conversa e depois vai ter ciúme de uma bobagem qualquer e explode.

 A pessoa de pavio curto, que vai explodindo tudo tem coisas mal trabalhadas dentro de si.

Na Umbanda existe uma identificação muito grande de Oxóssi com Caboclos, inclusive há uma confusão, se faz muita confusão entre Caboclo e Orixá na Umbanda, às vezes se confunde Caboclo com Orixá.

Caboclos são entidades que incorporam e falam, dão passe, dão comunicação.

Quando um Orixá incorpora, ele não fala, o Orixá vem para trazer o seu “axé”, o Orixá vem pra trazer sua força. Por que é que o Orixá não fala? Porque ele não vem para falar. Não é que ele não sabe falar. É que ele vem de outra realidade, é um ser natural. Você não incorpora o Oxóssi Maior, você incorpora um ser natural que vem da realidade de Oxóssi e também incorpora um Caboclo de Oxóssi Na Umbanda a gente não costuma chamar de “Catiço”, chama de “Caboclo”.

Caboclo de Oxóssi é um espírito humano que traz a força de Oxóssi, os Caboclos de Oxóssi são aqueles que no seu nome trazem alguma referência à mata, às folhas, ao verde, a fecha também é um símbolo de Oxóssi porque é o símbolo da caça, do caçador, “Caboclo Sete Flechas” é de Oxóssi, “Caboclo Sete Folhas” é de Oxóssi. “Pena” também é de Oxóssi, “Pena Verde” é de Oxóssi, são Caboclos de Oxóssi, diferente da incorporação de Oxóssi.

Alguns nomes de Oxóssi são nomes de Caboclos, existe “Oxóssi Rompe Mato” e Caboclo de Oxóssi “Rompe Mato”, é isso que a gente tem que observar, tem Ogum Rompe Mato e Caboclo de Ogum Rompe Mato, quem é o Orixá e quem é o Caboclo? Orixá não fala Caboclo fala e é uma entidade. Não confunda. Oxóssi é senhor de tudo o que é vegetal.

Quando a gente usa algo vegetal, pede-se licença a Oxóssi. Há também um Orixá pouco cultuado na Umbanda chamado “Ossain”, ele é senhor das folhas.

 Oxóssi é dono de todo reino vegetal e Ossain é senhor das folhas.

 Quando eu faço um chá estou usando “folhas”, quando eu faço um banho estou usando folhas, quando eu faço uma defumação estou usando folhas ou resinas.

É um fato que todas as folhas são de Ossain, mas ele distribuiu suas folhas para que os outros Orixás pudessem ter cada um a suas folhas. Para isso existe uma lenda na cultura Nagô Yorubá, um mito de que lá no Orun, Ossain era o detentor de todas as folhas do universo e não compartilhava isso com ninguém.

É dito que Iansã, senhora do vento, de temperamento forte, soprou as folhas de Ossain e essas folhas então levantaram e foram caindo. E da forma como as folhas iam caindo, cada Orixá pegou uma, pegou algumas e aí então surgiram as folhas de Ogum, as folhas de Oxóssi, as folhas de Xangô, de Iemanjá, de Nanã, de Omulu porque são as folhas que Iansã soprou das mãos de Ossain.
Ossain foi reclamar com Olorum, Olorum disse “Meu filho, é importante que os Orixás tenham as suas folhas, mas, essencialmente, naturalmente, todas as folhas são suas.

Quando um filho trabalha com folhas, ele pode trabalhar com as folhas de Ogum, de Oxóssi, Xangô, Obaluaiyê, fazer uma defumação, fazer um banho, mas deve antes pedir licença a Ossain. Isso é um mito Nagô Yorubá.

 Na África existiam sacerdotes de Ossain que eram sacerdotes desde crianças, eram preparados para trabalhar a força de Ossain.

Ossain enquanto Orixá é visto como um feiticeiro porque é aquele que manipula as folhas, o seu sacerdote chama-se “Babalossain”.

Ossain é visto como alguém que foi cortado ao meio, existe uma lenda que diz que Ossain brigou com Exu, Exu pegou um porrete deu lhe uma porretada que o cortou ao meio.

Ossain lembra um “saci”, só que ele só tem uma perna, só tem um braço, só tem uma orelha, só tem um olho, mas ele tem um poder muito grande, poder do feiticeiro que é um poder de magia também.

É dito que Ossain só tem uma perna, mas corre mais rápido que todos, só tem uma mão, mas tem mais habilidade do que todos, só tem um olho mas enxerga muito melhor do que todos, só tem uma orelha mas ouve muito melhor do que todos.

 Ossain é um feiticeiro, está no campo de Oxóssi. Na Umbanda entra no campo de Oxóssi, mas a gente pode ter amor por Ossain sem que seja preciso ser do Candomblé para ter amor por Ossain, eu posso ter amor por qualquer Orixá.

Eu não preciso de autorização, outorga de ninguém para me relacionar com um Orixá, Ossain é senhor das folhas. Como que eu me relaciono com Ossain? Da mesma maneira que a gente se relaciona com todos os outros Orixás na Umbanda: acendo uma vela e rezo, qualquer um de nós pode acender uma vela e rezar para Ossain. Que cor de vela? Pode ser uma vela branca ou pode ser uma vela verde, acenda e reze para Ossain.

Você pode fazer um agrado a Ossain, pode fazer uma pequena oferenda, ele recebe fumo de corda, mel e pinga numa cuia, você coloca o fumo de corda, coloca mel, coloca pinga, acende uma velinha, oferece a Ossain quando você precisar da ajuda de Ossain. Ele é aquele que ajuda com as folhas, com a arte de trabalhar as folhas que seja para curar, limpar, cortar demanda, seja para o que for.

Quando você for tomar um banho, quando for fazer uma defumação ou trabalhar com folhas, antes peça licença a Ossain, é simples. Você pode fazer isso ou não ou se você prefere apenas trabalhe com Oxóssi porque Ossain está no campo de Oxóssi, relacionar-se com Ossain é ter mais um Orixá, é ter conhecimento, é ter cultura é se relacionar com uma energia vegetal que é dedicada apenas ao uso das folhas.

Na Umbanda não há incorporação de Ossain, mas existe a incorporação de Oxóssi que está nesse campo.

Dentro da Umbanda também é muito reverenciada a jurema, a força da jurema.

Jurema é o nome de uma árvore, o nome das folhas, as folhas da jurema, a árvore da jurema, a bebida da jurema que é forte elemento do Catimbó.

Fala-se muito da jurema na Umbanda: “Vou abrir minha jurema, vou abrir meu juremar. Com a licença de Mamãe Oxum e meu Pai Oxalá...”, “Defuma com as ervas da jurema, defuma com arruda e guiné. Beijoim, alecrim e alfazema, vamos defumar filhos de fé. Defuma...”, a jurema também diz respeito a esse universo, ao universo vegetal que está relacionado ao “conhecimento”.

A primeira manifestação de Umbanda foi a manifestação de um Caboclo, o “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, a segunda manifestação de Umbanda foi a manifestação de um Preto Velho que é o Pai Antônio, ambos incorporados em Zélio Fernandino de Moraes e geralmente o Guia chefe de um Terreiro ou é um Caboclo ou é um Preto Velho, o conhecimento é algo muito forte.

 Antigamente dentro da Umbanda era muito comum proibir os filhos de santo de lerem, de estudar, proibir os médiuns de ler, proibir o conhecimento. Proibir o conhecimento é um absurdo. Hoje em dia se um médium pergunta para um dirigente: “O que é tal coisa?”, se esse dirigente responder “Meu filho, não é a hora ainda de você saber”, “Meu filho você não está pronto ainda pra esse conhecimento”, o médium vai pra casa, liga o computador, conecta na internet, entra no “Google” e escreve lá “Assentamento”, “firmeza”, “tronqueira”, “altar”, “Oxóssi”, “Ogum” e aparece lá um monte de informação.

Estamos na Era da informação, do conhecimento, não se pode negar o conhecimento. O desequilíbrio no campo do conhecimento, o vício, essa arrogância, pedancia, essa ideia de que por ter mais conhecimento você é superior ao outro, isso é um desequilíbrio no conhecimento. A inversão do conhecimento é a ignorância, a mentira.

Quando o sentido do conhecimento é mal trabalhado, quando não se usa de forma equilibrada, quando nós não lidamos de forma equilibrada com o conhecer acerca das coisas, da vida, então a gente começa a ter problemas com a informação, problemas com a verdade, começa a dar o tal do branco, confusão mental e aí entra “Mãe Obá”.

Mãe Obá no sentido do conhecimento é cósmica. Oxóssi é o caçador, Oxóssi é expansor. Obá é concentradora. Oxóssi é vegetal. O sentido do conhecimento é o sentido vegetal. Oxóssi é universal ele expande o vegetal, Obá é aquela que dá o chão e o sustento para o vegetal.

Obá é a mãe, o elemento dela é terra, Obá é a terra que sustenta o vegetal de Oxóssi, é a mãe terra, é “gaia”, gaia é a mãe terra, é nossa mãe Obá. “Senhora do conhecimento” aquela que lhe dá terra, mãe Obá nos dá chão. Se Oxóssi é expansor e ela é concentradora, os filhos de Oxóssi são falantes; as filhas de Obá são concentradas, as filhas de Obá são mais introspectivas.

A força de Obá é uma energia que vem para nos dar foco, objetivo, concentração.

Oxóssi lembra aquele professor expansivo, falante, comunicador; Obá lembra aquela professora rígida, dura, que vem com a palmatória pra lhe acertar a mão se você não está estudando direitinho.

No campo do conhecimento, o ápice é a verdade, é trazer a sua verdade, a verdade é o ápice em todos os sentidos da vida.

Quando aquilo que eu estou falando é a minha verdade, aquilo que eu estou expressando é uma verdade, a minha palavra tem poder, quando eu estou na minha verdade, a minha palavra tem um impacto sobre o outro diferente do mentiroso.

 A pessoa que mente esconde a mão, a pessoa que mente enquanto está mentindo ela trai a si mesma, o mentiroso coça o olho, coça o nariz, o mentiroso pisca e gagueja o mentiroso não tem poder na sua palavra, o mentiroso quando expressa algo esse algo não tem impacto sobre as pessoas porque a mentira “desempodera” o conhecimento.

 O conhecimento não é real se não é uma verdade.

Mãe Obá é também senhora da verdade, senhora do conhecimento da verdade. Nós pedimos a ela que nos ajude a viver o nosso conhecimento na nossa verdade. Quando a gente está perdido com a cabeça bagunçada, quando tem uma confusão mental, ou seja, falta de objetividade, falta de foco, falta de concentração, nós pedimos ajuda a Obá.

Se você vai dar aula, ensinar e multiplicar conhecimento quem lhe ajuda é Oxóssi. Se você vai buscar fartura, comida, quem lhe ajuda é Oxóssi. Se você precisa de concentração, se você vai fazer uma prova, se você tem que se concentrar, se você precisa de objetividade quem te ajuda é Obá. Obá tem essa força de objetivo, é vista como uma guerreira.

Obá é determinada, focada, se é isso que você está precisando peça ajuda a Obá, as filhas de Obá são quietas, são concentradas, não dão muita importância ao vestuário, a beleza, elas são opostas a Oxum. Não quer dizer que a mulher deixa de ser vaidosa, não, a filha de Oxum tem mais preocupação, a filha de Obá tem menos preocupação, ela é muito focada, muito concentrada.

Nós pedimos a Obá que nos dê essas qualidades de concentração, de foco, de objetivo, a terra de Obá é uma terra fértil, diferente da terra de Omulu que é uma terra seca, diferente da terra de Obaluaiyê que é uma terra molhada, a terra de Obá representa a terra fértil onde tudo se planta e depois você vai colher, terra de fazer um bom plantio.

Hoje na nossa sociedade o conhecimento acerca dos valores é algo muito deturpado, o conhecimento acerca de si mesmo é muito deturpado, existe um desvio de valores, existe hoje algo chamado de “máscara social”, nós não vivemos a nossa verdade, é muito comum não viver a sua verdade. Nós podemos pedir a Obá que nos ajude a viver a nossa verdade, a ter foco, a ter objetivo, a ter clareza, que nos ajude a não ter arrogância com relação ao conhecimento porque o arrogante é dono da verdade, é o “sabichão”, é aquele que sabe tudo, sempre tem que estar certo, esse está desequilibrado no campo do conhecimento.

Não admitir que você não sabe tal coisa, que você não tem o conhecimento de alguma coisa é maturidade. Querer estar sempre certo, querer dizer que você conhece tudo, que você sabe tudo é imaturidade, a arrogância em cima da imaturidade é algo que deve ser trabalhado na força de Obá.

O conhecimento que tem valor é o conhecimento que nos torna maiores, melhores, essa pessoa chata que sempre quer estar certa, que sempre tem que ter razão é o primeiro candidato a, na velhice, começar a se tornar uma pessoa totalmente esquecida, desequilibrada, perturbada e envelhece, mas não amadurece e aí acaba se tornando um estorvo.

Diferente daquela pessoa que ao envelhecer está amadurecendo, aprendendo, se tornando sábio que ajuda o mais jovem a entender que tudo passa na vida, que o importante é você viver a sua verdade, essa pessoa é como vinho que “quanto mais velho, melhor”, que você quer perto, essa pessoa fez da vida o seu mestre, aprendeu com a vida e faz de si mestre de si mesmo, então está no campo do conhecimento do nosso Pai Oxóssi e da nossa Mãe Obá.

 “Akirô Obá yê, salve o seu conhecimento, senhora da terra”.

Que Oxóssi e Obá nos abençoem aqui, agora e sempre.

Anna Pon


(baseado no curso de Teologia de Umbanda Sagrada, desenvolvido por Rubens Saraceni e ministrado por Alexandre Cumino)

Linhas de Trabalho na Umbanda – Caboclo

Quem é o Caboclo?

O que o Caboclo representa para a religião de Umbanda?

 O que significa?

Por que nós temos uma linha de trabalho chamada linha dos Caboclos na Umbanda?
E dentro da Umbanda a linha de Caboclo é a linha mais expressiva, a mais presente, a mais forte, a mais significativa junto com a linha de Preto Velho.

 Poderíamos dizer que as duas linhas mais fortes são: de Caboclo e Preto Velho e na maioria das regiões do Brasil, a linha de Caboclo tem se mostrado como a linha mais forte, mais determinante, mais incisiva, mais presente, mais significativa, seguida pela linha de Preto Velho.

Podemos inclusive trazer o contexto histórico, vamos voltar até a história de Zélio de Moraes e do Caboclo das Sete Encruzilhadas, vamos voltar até que todos tenham isso “de cor”, na “ponta da língua”, a primeira manifestação de Umbanda foi no dia 15 de novembro de 1908, Zélio de Moraes incorpora um espírito e ao ser questionado: “Quem é você?”, ele responde: “Se eu preciso ter um nome, me chame Caboclo das Sete Encruzilhadas”.

 Caboclo das Sete Encruzilhadas, não é um nome da sua identidade, é um nome simbólico.

 E Caboclo?

 Qual é o simbolismo em si de Caboclo?

O que quer dizer Caboclo?

Quando alguém diz: “Eu sou um caboclo”, o que ele está querendo dizer com isso: eu sou um caboclo? Então, vamos a palavra: caboclo. O que quer dizer caboclo? Na cultura Brasileira, na língua portuguesa, qual a terminologia da palavra caboclo?

Quer dizer: simples. Caboclo é isso: é um homem simples. Quando uma entidade, um espírito diz que é um Caboclo, isso tem sido considerado sinônimo de índio, mas Caboclo não é sinônimo de índio. Quando alguém perguntou para aquela entidade: quem é você?
 Ele não respondeu: eu sou o índio Sete Encruzilhadas, ele respondeu: “Eu sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas”.

Há uma diferença entre ser caboclo e ser índio porque um índio pode ser um caboclo, mas um caboclo não é necessariamente, nem obrigatoriamente um índio.

No entanto, para a Umbanda, quase todos os Caboclos tem se apresentado como índios.

 Todo Caboclo é índio?

 Não necessariamente.

Nem todo Caboclo é índio e nem todo Caboclo foi um índio ou teve uma encarnação como índio, os espíritos que se manifestam como Caboclo em sua grande maioria traz um pouco de sua cultura nativa, dessa cultura do índio, mas não necessariamente eles foram índios.

 Mesmo que não tenha sido índio, ele pode querer se apresentar como índio, essa é a liberdade que a Umbanda dá, isso se chama linha de trabalho, forma de apresentação, hierarquia, aquele espírito assume uma forma plasmada, ele se assenta numa hierarquia, se você tem tantos Caboclos Pena Branca, então um deles é o primeiro Pena Branca, o hierarca Pena Branca, aquele que é o dono do nome, o responsável pelo nome, aquele que em algum dia se identificou com aquele mistério Pena Branca.

No caso de Pena Branca existe a história de um índio e foi chamado e identificado, existiu um índio Pena Branca, a gente tem um histórico desse índio num texto do Edmundo Pelizari.

Existe o índio Pena Branca, existiu o índio Ubirajara, existe na história, na literatura Brasileira de José de Alencar está Ubirajara, a história de Ubirajara.

Urubatão é nome praticamente de um mito indígena, de um herói indígena. Agora, quando você fala Caboclo Tupã, Tupã é o nome da divindade, da deidade, não para todas as tribos Tupis Guaranis, para alguns Tupã era uma das divindades, para outros Tupã era uma referência a uma força: ao trovão.

Quando o Caboclo dá o nome de Tupã, quer dizer que ele está fazendo uma referência a uma força, a uma energia, diz respeito a qual linha que ele está trabalhando, então quem é ele? Ele é um Caboclo. Você sabe quem é o Caboclo? Não, você não sabe quem é o Caboclo, você só sabe o que ele está querendo lhe apresentar, o que ele está querendo lhe mostrar.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas foi Frei Gabriel de Malagrida – Frei Gabriel de Malagrida foi um intelectual, foi um homem de cultura europeia - no entanto, ele prefere se apresentar como Caboclo, diz que foi índio e se apresenta como Caboclo, como homem simples. Por que apresentar-se como Caboclo das Sete Encruzilhadas? Para que não haja o culto a personalidade, para que não haja o culto ao ego se apresenta como caboclo, como homem simples.

Nós podemos nos lembrar que isso aconteceu numa sessão Espírita em que ali os médiuns estavam incorporando espíritos de índios, espíritos de negros e o dirigente da sessão estava convidando esses espíritos a se retirarem porque eles não tinham o mesmo nível de cultura, de informação, de sabedoria, eles não eram doutores, não eram filósofos, então há uma confusão entre bondade e cultura.

Um homem pode ser extremamente culto, intelectual, ter muito conhecimento e não ser um homem bom. E às vezes a pessoa simples, a pessoa que não teve muito acesso a cultura, muitas vezes se sente intimidada quando está diante de alguém que se apresenta cheio de conhecimento, de cultura, de informação porque é comum no dia-a-dia as pessoas que adquirem muito conhecimento, assumirem uma postura de arrogância, então aquele que já se apresenta dessa forma de certa maneira cria certo acanhamento na pessoa que é simples.

Apresentar-se como pessoa simples, é isso que o Caboclo pretende: apresentar-se como uma pessoa simples, faz com que os outros simples e humildes consigam conversar e estabelecer uma relação na mesma altura, no mesmo nível.

Nos textos de Leal de Souza que é o primeiro escritor de Umbanda, que foi médium, intelectual, escritor que na época de Zélio de Moraes frequentou o Espiritismo, era um expositor, um médium falante que dava palestras, que ensinava a doutrina Espírita, que ao conhecer a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e Zélio de Moraes se torna Umbandista.

Leal de Souza, o autor do primeiro livro de Umbanda, que se chama: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, ali no primeiro livro de Umbanda ele fala sobre o Caboclo das Sete Encruzilhadas e ele diz que o Caboclo das Sete Encruzilhadas se comunica de uma forma simples e humilde com os humildes e se comunica de uma forma mais intelectualizada com as pessoas que são intelectualizadas.

Apresentar-se de uma forma humilde ou comunicar-se de forma humilde é uma opção e não uma falta de opção para os Caboclos, que isso fique muito claro.

 O Caboclo não é - ele pode ser - mas ele não é sinônimo de bugre, não é sinônimo de ignorância, não é sinônimo de falta de conhecimento, não é sinônimo de espírito atrasado e nem o índio é sinônimo de espírito atrasado, nem de falta de cultura.

O índio tem outra cultura, o índio tem uma cultura diferente, isso não é falta de cultura. Isso quer dizer que ele tem a cultura dele, que não é a cultura do europeu, que não é a cultura do branco, diz a cultura do homem vermelho, a cultura do índio.

E dentro da cultura do índio nós temos a cultura do índio Tupi, a cultura do índio Guarani, a cultura do índio Karirri, a cultura do índio Xavante, a cultura do índio Xocó, a cultura do índio Tupinambá, a cultura do índio Aymoré, a cultura do índio Brasileiro, a cultura do índio norte-americano, a cultura indígena antiga. E há uma ligação entre essa cultura e a cultura dos Maias, a cultura dos Astecas, as culturas aborígenes em torno do mundo, as culturas naturais, as culturas nativas, as culturas que louvam, que cultuam, que adoram, que amam e vivem em harmonia com a natureza.

Caboclo tem uma mensagem relacionada a essa outra forma de ver o mundo, essa outra forma de ver a vida, aquele que é caboclo traz uma mensagem de simplicidade, de ver a vida com simplicidade, de relacionar-se com simplicidade na vida.

Há uma mensagem implícita na presença do Caboclo, ser Caboclo representa alguma coisa dentro da Umbanda, ser Caboclo representa, na Umbanda, um conjunto de valores, uma forma de expressar-se, uma maneira de ser, que vai muito ao encontro da cultura indígena - mas não apenas da cultura indígena, mas não apenas da cultura indígena Brasileira – vai ao encontro da natureza, das forças da natureza, da simplicidade do ser e da força que isso pode representar.

Quando o Caboclo se apresenta como Aymoré, não necessariamente ele foi um índio que teve por batismo esse nome, ele se apresenta como Tupinambá, Tupinambá foi um tronco cultural e linguístico, não foi um índio. Ele pode se apresentar como Caboclo Guarani, Ubirajara, Icaraí, Guaraci, Caboclo Jurema – Jurema é o nome de uma árvore, jurema é o nome da bebida que se faz com a árvore, jurema é o nome de um ritual, jurema é o nome da mãe, a divindade que habita aquela árvore.

Existe jurema branca, jurema vermelha, jurema preta – e a Cabocla Jurema? Cabocla Jurema é alguém que traz essa força, essa energia, o seu nome é simbólico.

Quantas Caboclas Juremas existem?

Muitas Caboclas Juremas, isso é hierarquia, isso é o simbolismo e quando eu digo Caboclo eu quero dizer: Caboclo e Cabocla, que se entenda bem, Caboclos e Caboclas e não são apenas índios e índias, mas que representam uma cultura, uma força, um conjunto de valores, o Caboclo traz para nós esse conjunto de valores.

Quando o Caboclo se coloca como um homem simples, e é esse um dos objetivos, a pessoa simples se sente a vontade e a pessoa arrogante, a pessoa soberba, a pessoa preconceituosa, esta pessoa vai precisar baixar um pouquinho o seu ego, essa pessoa vai ter que “descer do tamanco” e essa pessoa preconceituosa, arrogante, soberba, vai aprender a pedir a benção para o Caboclo, tomar-lhe a mão, beijar a mão e pedir a benção meu Pai porque é esse Caboclo, esse simples que vai lhe ajudar, que vai cortar as demandas, que vai limpar, que vai purificar, que vai dar uma força, que vai dar uma energia, que vai ganhar a sua confiança, o seu amor, a sua fé e que vai transformar essa pessoa em alguém menos arrogante, alguém menos egocêntrico, alguém menos vaidoso, alguém menos soberbo porque agora ele começa a ver que também o Caboclo é uma imagem na qual se espelhar, também o Caboclo é naquele momento, um objetivo de vida, também é representante de um conjunto de valores, de novos valores, representa uma mudança de paradigma, o Caboclo é um exemplo de virtudes, exemplo de valores e ali o consulente seja quem for vai aprender a respeitar o diferente.

A Umbanda, de uma forma subjetiva, ensina o respeito ao diferente porque se o Caboclo está ali como homem simples e na maioria das vezes como um índio, você está aprendendo a respeitar essa cultura diferente, você está aprendendo a respeitar o homem vermelho, você está aprendendo a ser como ele, a adquirir essa humildade e pra aqueles que se acham muito sabidos, mas que na verdade são ignorantes porque ignoram a cultura do outro, que pensam que o índio é sem cultura, que na verdade ele é apenas de uma cultura diferente, que busquem mais informação sobre os valores dessa cultura.

A Umbanda nos chama para incorporar o Caboclo, mas não apenas para incorporar o Caboclo, a Umbanda nos chama para incorporar os valores do Caboclo, nós temos na Umbanda uma religião mediúnica, na qual a principal forma de mediunidade é a mediunidade de incorporação. A Umbanda é uma religião de transe mediúnico, a Umbanda é uma religião de possessão, a Umbanda é uma religião na qual em estados alterados de consciência, pelo transe mediúnico, unicamente pelo transe mediúnico nós ficamos tomados, possuídos, incorporados, manifestados de entidades que se apresentam em arquétipos.

Não importa qual Caboclo você trabalha, ele traz um conjunto de valores incomum para todos os Caboclos e a Umbanda lhe chama não apenas para incorporar esse Caboclo, mas para incorporar os valores desse Caboclo para sua vida, a Umbanda lhe chama pra você operar um crescimento espiritual a partir dos valores do Caboclo, do Preto Velho, da criança, do baiano, do Boiadeiro, do Marinheiro, do Cigano, do Exu, da Pombagira, a Umbanda lhe chama a respeitar o diferente, pedir a benção para o Caboclo aqui, pedir a benção para o Preto Velho ali, dar a benção pra criança, aprender o respeito e o amor pelo Exu, pela Pombagira, respeitar uma mulher incorporada de Exu, um homem incorporado de Pombagira, respeitar e entender a manifestação espiritual: feminina no masculino, masculino no feminino, o diferente, os valores diferentes, as diferentes formas de olhar para a vida.

O Caboclo traz esses valores relacionados à natureza, à simplicidade e o Caboclo representa também a força, o Caboclo é sinônimo do homem forte, do guerreiro, do líder, então quando você incorpora o Caboclo, naquele momento, você – como somos mais de 90% dos médiuns de Umbanda são semiconscientes e aqueles que são inconscientes também estão aprendendo de forma inconsciente – então, ao incorporar o Caboclo se nós
estivermos de mente e coração abertos, estaremos incorporando os valores do Caboclo, estamos nos “encaboclando”, nos “empoderando” no mistério do Caboclo, estamos nos tornando pessoas melhores.

Falar sobre Caboclo é algo que mexe profundamente com a gente, todos nós temos experiências incríveis com Caboclo, com Preto Velho, com Baiano, com Boiadeiro e cada um deles nos marcam de uma forma diferente, às vezes nem pelo que disse ou pelo que fez, mas pelo que a gente sente quando está na presença de um Caboclo, isso é algo que eu posso falar, mas que é impossível de transmitir a experiência do convívio diário ou convívio esporádico com Caboclo dentro da religião de Umbanda.

 E há algo que a gente chama de mistério Caboclo, já que Caboclo é um grau, os espíritos que se manifestam como Caboclos na Umbanda têm um grau conquistado. No livro: Guardião da Meia Noite, pai Benedito de Aruanda diz que a linha dos Caboclos é uma homenagem àqueles que foram os donos dessa terra, a linha dos Pretos Velhos é uma homenagem àqueles que foram trazidos a essa terra como escravos, então há uma homenagem. No entanto, há também um fato, espíritos iluminados encarnam em todas as culturas, não importa em qual cultura você está, existem ali espíritos iluminados no histórico daquela cultura.

Houve espíritos iluminados encarnados entre os índios, espíritos iluminados encarnados entre os negros Africanos e aqueles que foram trazidos para cá como escravos, houve espíritos iluminados entre os Europeus também, não se generaliza um povo como gente boa ou gente ruim, isso não existe, gente boa e gente ruim têm em todo lugar.

Houve um contexto histórico aqui nesse país que é o da descoberta das Américas, o contexto histórico do Europeu conquistando as Américas, o contexto histórico do Europeu dizimando os índios, nós temos aí um campo vasto de história que conta como que isso aconteceu, geralmente conta a partir do olhar do conquistador – recomendo um livro e um filme chamado: Enterrem o meu coração na curva do rio, e existe um livro que é a visão do índio norte americano sobre a colonização e a conquista porque nos filmes americanos você vê sempre o mocinho que é o herói, que é o da cavalaria e o índio é bandidão que está matando todo mundo, então essa é a visão do índio, é linda. E lá mostra esse processo de compra de terra, mostra as resistências indígenas norte americanas e mostra lá vários índios que se tornaram heróis como o Touro Sentado que foi um símbolo de resistência indígena, de resistência dos valores indígenas, de não se entregar, de manter a terra.

Homens como ele e tantos outros anônimos foram espíritos iluminados que encarnaram naquela época com a missão de conduzir o seu povo no momento de sofrimento. Houve outros que encarnaram nas três Américas e havia no histórico da cultura indígena de todas as tribos também, uma cultura espiritual e religiosa aos antepassados que foram heróis, houve nas tribos e nas culturas indígenas assim como em todas as outras, um histórico de líderes espirituais, de heróis, de pajés, de caciques, de homens e mulheres, de grande louvor, de grande honra, de grande hombridade, de muita luz, mestres da humanidade.

Quando nós falamos de mestres da humanidade, eles estiveram entre os índios e continuavam conduzindo seu povo do plano astral, houve naquele momento de sofrimento de dor, de dizimação, os índios foram dizimados dessa Terra, espíritos missionários que encarnaram no meio daquilo tudo pra manter, tentar manter certa qualidade de vida no meio daquele sofrimento todo.

Muitos índios de muita luz desencarnaram nesse processo de colonização e dentro desse processo, esses espíritos mais altruístas, mais elevados, ascensionados, iluminados, que desencarnaram nesse processo de colonização, no astral eles continuaram ajudando o seu povo, mas ajudando a todos, não apenas o seu povo e eles fazem parte desse astral, das egrégoras de espíritos que encarnam no Brasil.

E houve o encontro do índio com o negro, com o branco, houve o encontro de culturas no astral, houve ali o encontro de algumas almas iluminadas que tiveram sim, a última encarnação como índios junto com outros iluminados que tiveram a última encarnação como escravos no Brasil. E desse encontro, não apenas, mas também por meio desse encontro, se faz a organização de linhas, falanges e espíritos que viriam a trabalhar na Umbanda, nesse encontro estão aqueles espíritos que vão dar o início, a alavanca, a concretização da Umbanda, a realização, a organização da Umbanda no astral e na matéria, espíritos que foram índios, foram negros escravos, mas que também foram grande intelectuais, grandes mestres, mentores, iluminados e que ser índio na última encarnação não quer dizer nada porque em cada encarnação você nasce num lugar diferente, de uma forma diferente.

Espíritos iluminados que tem a consciência de várias encarnações, mas que tem a condição de trazer o valor dessa cultura, daquela cultura, daquela outra e que tem por meio do contato com a espiritualidade superior, por uma ordem do astral, por uma ordenação do alto receberam a missão de criar uma nova religião: a Umbanda, que faz uma homenagem aos índios, faz uma homenagem aos negros, faz uma homenagem aos Caboclos e que tem entre muitos dos iluminados dessa cultura indígena, entidades que fizeram parte da criação e fazem parte da religião de Umbanda entre os negros escravos, muitos iluminados, fizeram parte da criação da Umbanda, fazem parte das linhas de Umbanda, mas também entre os Europeus, gente de tudo quanto é cultura está na Umbanda, na linha de Caboclo, não tem apenas espíritos ligados à cultura indígena, não tem apenas da cultura indígena Brasileira, inclusive há nomes como Caboclo Pele Vermelha, o Caboclo Águia Branca, o Caboclo Pantera Negra, são Caboclos que no astral estão relacionados à cultura indígena norte americana.

Há linhas dentro da Umbanda, como a linha de Sultão das Matas, Caboclo Sultão. O que é um sultão? É uma referência a uma cultura Árabe, um Caboclo Sultão das Matas – matas pertencem à Oxóssi, mas essa linha de Caboclo Sultão das Matas é uma linha que traz espíritos que tem origem numa outra cultura que não é a cultura indígena. Há Caboclo Maia, Caboclo Inca, há Caboclo de culturas mortas, espíritos de culturas que acabaram como dos Incas, dos Maias, dos Astecas, dos Egípcios, espíritos de culturas mortas, mas que foram riquíssimas com relação aos seus valores, ao culto e a relação com a natureza, as linhas de Caboclo tem condição de resgatar grupos de espíritos de outras culturas, de culturas antiquíssimas e não apenas à cultura indígena, mas que se adaptam a uma linguagem de Umbanda.

Esses espíritos, eles vão adotar uma linguagem Umbandista, eles vão se adaptar ao contexto da religião e daquele Terreiro que eles fazem parte, então preste atenção nisso:

 Pense comigo: vamos supor um índio da tribo Tupi que desencarnou e veio trabalhar como Caboclo – quando ele era vivo a língua que ele falava era o Tupi e ali dentro ele tinha um culto às divindades Tupi, então ali havia o culto à mãe d´água, a mãe do mar, a mãe do rio, a lua, ao sol, a Iandeci, Ianderu, a Jaci, um culto à Tupã e agora se você considerar que esse índio é o Caboclo,
observe a linguagem, por mais enrolado que ele fale, ele fala em língua portuguesa, por mais que ele faça referência a uma cultura da natureza indígena, ele está lhe orientando para: acender vela e rezar para Oxóssi, para Ogum, pra Xangô - “Espera aí, o Caboclo não é índio? Ele está recomendando acender vela para os orixás da cultura Africana? Ele está falando de Jesus Cristo? Mas, ele é um índio que foi Catequizado”. Não. Ele é um Caboclo independente dele ter sido índio ou não, ele traz valores dessa cultura da natureza e ele assume uma linguagem Umbandista que o Caboclo, o Preto Velho, o Baiano, o Boiadeiro falam a mesma linguagem, nos trazem para o culto aos mesmos Orixás que são as mesmas divindades.

Há uma cultura de Umbanda, uma cultura Brasileira, um jeito Umbandista de lidar com a espiritualidade e a religião, o Caboclo assume esse jeito, assume essa cultura, independente de quem ele foi na última encarnação. E tenha sido ele índio ou não, a maioria dos Caboclos se lembram e conhecem muitas das suas encarnações e não apenas a última, então ser Caboclo é uma opção.

Caboclo é um grau, dizemos que é um grau e esse grau envolve um mistério, o mistério relativo, pertinente ao grau Caboclo. O que quer dizer um grau? Quer dizer que para alguém se manifestar como Caboclo na Umbanda, ele tem que ter conquistado esse grau, ele tem que ter certa hierarquia espiritual, uma estatura espiritual, não baste querer: “Ah eu sou um espírito e como você quer vir na Umbanda?”, “Ah eu quero vir como Caboclo porque eu acho bonitinho”, não é assim. É um grau conquistado, então no astral há algo como numa escola, algo como uma fraternidade, uma congregação, algo como pertinente a esse grupo que se identifica como Caboclo.

Os Caboclos, aqueles que criaram as linhas, que fundaram as linhas, esses Caboclos vão recebendo espíritos para trabalhar junto com ele, quando um Caboclo Pena Branca recebe espíritos para trabalhar junto com eles, esses espíritos assumem o nome Pena Branca, formam grupos de espíritos que trabalham em nome do mistério Pena Branca, do mistério Caboclo e do mistério Pena Branca. Caboclo é um mistério de Oxóssi, por isso que os Caboclos trabalham com as forças das matas, com as forças das ervas, com a cor verde, com guias verdes, pedem oferendas com frutas e elementos que são elementos de Oxóssi e daí a relação de Caboclos com Oxóssi que é considerado: o caçador.

Todos os Caboclos têm algo de Oxóssi porque Caboclo é o mistério de Oxóssi, todos os Caboclos têm algo de caçador, de forte, de líder. Agora, mistério Caboclo é mistério de Oxóssi, mas temos Caboclos de Oxalá, Caboclos de Oxum, Caboclos de Oxóssi, Caboclo de Xangô, Caboclo de Nanã, de Yemanjá e isso é revelado pelo simbolismo do nome dos Caboclos, é um grau que se conquista dentro de uma hierarquia, pra alguém se manifestar como Caboclo da Pedra Preta, ele tem que fazer parte da hierarquia daquele que é o primeiro Pedra Preta, o hierarca Pedra Preta, do Caboclo Pedra Preta, então todos vão trabalhar em nome dele, aquele hierarca Pedra Preta.

 Então, são quantos?

Milhares que trabalham sob o mesmo nome, sob a mesma hierarquia.

Quando acontece algo a um Tupinambá, todos Tupinambá estão sabendo; quando um Caboclo Tupã está trabalhando, ele está ligado a milhares e milhares de Caboclos que carregam o nome Caboclo Tupã; quando o Caboclo Ubirajara está realizando algo ele está ligado a todos os outros Caboclos Ubirajaras, então é uma falange, uma hierarquia, que tem graus dentro da hierarquia.

O hierarca abaixo dele aqueles que estão tomando conta do trabalho dos Tupinambás, dos Aymorés, dos Fecha Dourada, dos Fechas Ligeiras, dos Fechas Brancas, Fecha Vermelha, Fecha..., isso é hierarquia, em que o nome revela, Caboclo já e o mistério de Oxóssi.

Se o nome dele é um nome em Tupi Guarani como esses que a gente vem falando aqui: Urubatão, Ubirajara, Aymoré, Icarí, Caboclo Tupinambá, Tupã, já tem algo que tem a mais de Oxóssi por estar dando nome na língua Tupi ou Tupi Guarani ou alguma outra língua indígena, agora, quando o nome dele é Caboclo Sete Montanhas, de quem é esse Caboclo? Em qual vibração ele trabalha? Montanhas são de Xangô, então Caboclo Montanha é Caboclo de Xangô, Caboclo Sete Montanhas é um Caboclo de Xangô trabalhando com as sete linhas. Caboclo Pena Branca: pena é de Oxóssi, branca é de Oxalá. Caboclo Pena Vermelha: pena é de Oxóssi, vermelha é de Ogum; Pena Marrom: pena é de Oxóssi, marrom é de Xangô; Pena Roxa: pena de Oxóssi, Roxa de Omulu.

Caboclo Pedra Branca, Pedra Amarela, Pedra Vermelha, Pedra Azul, Pedra Roxa, as pedras são minerais, são de Oxum, pedra é de Oxum. Agora, são muito conhecidos os Caboclos Pedra Preta de Xangô, Pedra Preta da Pedreira.

Muitas vezes a gente não tem o nome completo do Caboclo, ele pode ser Caboclo Sete Montanhas da Praia, Caboclo Fecha Ligeira dos Rios e você só tem o primeiro nome, então o primeiro nome desse Caboclo revela na vibração que ele trabalha, mas não apenas essa porque muita gente trabalha com seu Caboclo Pedra Preta que é um Caboclo de Xangô, o nome Pedra Preta diz: pedra de Oxum, preta de Omulu. Mas, Pedra Preta das Montanhas, Pedra Preta de Xangô, há de se interpretar o nome, há de interpretar os nomes dos Caboclos.

As flechas são de Oxóssi e de Yansã, de Yansã porque a flecha dá também a direção. Quando o nome do Caboclo está em Tupi Guarani tem que traduzir, Ubirajara: quer dizer o atirador de lança – lanças são de Ogum.

Assim funciona a interpretação dos nomes, Caboclos das Matas de Oxóssi, Caboclo mata Virgem, virgem revela pureza que está ligada a Oxalá e pode ter uma ligação com a virgindade de Maria, a virgem imaculada, a Nossa Senhora da Conceição, Caboclo da Mata Virgem: mata - Oxóssi, virgindade/ pureza – Oxalá e se trouxer essa relação pertinente a Maria Nossa Senhora da Conceição, mãe de Jesus, a sua virgindade a esse conceito, então também terá o Mistério de Oxum, Caboclo da Mata Escura: escura/ escuridão é de Omulu, Caboclo Águia Branca, os pássaros são de Oxalá, branco também é de Oxalá, Caboclo Fecha Ligeira: ligeira é de Yansã, aquilo que é rápido, que é veloz.

Alguns Caboclos têm nomes de animais como, por exemplo, Caboclo da Cobra Coral: cobra está relacionado a Oxumaré, coral é uma cobra que traz as cores: vermelho, branco, amarelo e preto – vermelho de Ogum, branco Oxalá, amarelo Yansã e preto Omulu, então Caboclo Cobra Coral tem o mistério de Oxumaré com todos esses outros mistérios. Caboclo Araribóia, araribóia é uma cobra, então está no mistério de Oxumaré.

A gente teria que traduzir a palavra araribóia pra saber o que mais esse Caboclo tem de mistério.

Caboclo Ventania, a ventania é de Yansã. Caboclo do Raio: de Xangô, de Yansã; Caboclo Giramundo: o mundo é de Oxalá, o que faz o mundo girar? O tempo – de Logunan e girar em círculos é de Yansã, então essas são as maneiras de interpretar os nomes dos Caboclos, Caboclo é um grau dentro desse grau cada linha e Caboclo trabalha dentro de um mistério, dentro de um campo.

Isso é uma ciência, é uma técnica, é uma maneira de conhecer e interpretar, temos Caboclos de todos os Orixás, Caboclo Treme Terra é de Obá, Caboclo das Cachoeiras, Caboclos das Quedas, Caboclo dos Rios, Caboclo da Cachoeira Verde, da Cachoeira Amarela, da Cachoeira Dourada, da Montanha Dourada, da Montanha Verde, Caboclo Espada, Lança, Sete Espadas, Sete Lanças, Caboclo da Lança da Fé, Caboclo da Lança do Amor, Caboclo das Sete Espadas do Conhecimento, das Sete Espadas da Lei e da Vida, então se aprofunde no conhecimento do elemento, do simbolismo dos Orixás.

 Os nomes dos Caboclos revelam esse simbolismo, é uma questão de interpretação. É muito melhor e mais seguro, você aprender de quem é a espada, de quem é a lança, de quem é a cachoeira, de quem é o mar, de quem é a mata, de quem é a cor branca, amarela, vermelha, roxa, de quem é esse elemento, aquele, aquele outro, do que consultar listas e tabelas em livros que muitas vezes estão apresentando os nomes de Caboclo com relação ao Orixá e você vai ver a relação que não está correta.

Você quer saber na força de quem o seu Caboclo trabalha: interprete o nome dele. Mas, saiba você trabalha com o Caboclo Sete Espadas, você fala Sete Espadas é de Ogum trabalhando nas sete linhas, mas ele pode ser Sete Espadas do Mar, então ele será de Ogum trabalhando nas sete vibrações dentro do campo de Yemanjá.

A gente tem Caboclo Beira Mar, beira mar é uma referência a Ogum Beira Mar, então, Caboclo Beira Mar já é um Caboclo de Ogum - beira mar é onde você tem água e terra – então , Beira Mar é de Yemanjá? É, mas também é de Obaluayê porque é água e terra. Caboclo Sete Ondas, as ondas são referência ao mar, as ondas são vibrações, são energia, onda é movimento também tem Yansã.

 A onda é a água que está se movimentando no ar, então essa é a interpretação que tem que ser feita. Caboclo Marinho: Caboclo de Yemanjá, Caboclo da Água: Yemanjá, Caboclo do Fogo: Xangô, Cabocla do Fogo, Cabocla da Água, Caboclo Matinata é um Caboclo de Ogum Matinata, Ogum Matinata é uma entidade, o Caboco Matinata é outro. Ogum Beira Mar é uma entidade, Caboclo Beira Mar é outra e essa é uma confusão comum na Umbanda.

As chamadas de Caboclos de Ogum são chamadas de espíritos humanos que alcançaram o grau de Caboclo na força de Ogum, chamada de Ogum é chamada dos naturais de Ogum são coisas diferentes, é comum fazer confusão. Dizer “Eu trabalho com seu Oxóssi Pena Branca”, quem é ele? É um Caboclo de Oxossi, os nomes dos naturais de Ogum são nomes conhecidos como: Beira Mar, Matinata, Xorokê, Ogum de Ronda, Ogum Naruê, Ogum Marinho, Ogum Beira Mar são nomes conhecidos. Agora, dos outros Orixás como Oxóssi não tem muitos nomes conhecidos, então é Oxóssi da Lei, Oxóssi do Ar, Oxóssi do Conhecimento, Oxóssi do Amor, Oxóssi da Fé. A gente tem algumas Oxuns que são conhecidas como Oxum Apará que trabalha na Lei, mas também temos Oxum do Amor, Oxum do Conhecimento, Oxum da Fé e não tem que ter necessariamente um nome conhecido.

Os Oguns têm nome muito conhecido porque os Caboclos de Ogum, eles ostentam, eles assumem os nomes dos Oguns e aí que você tem: Caboclo Matinata, Caboclo Rompe Mato, Caboclo Beira Mar, Caboclo que está ali na força de Ogum, mas não é incorporação do Orixá Ogum, é incorporação de um Caboclo de Ogum e é aí que não deve se fazer confusão, aí que se deve prestar atenção: o que é um Caboclo de Oxóssi, o que é Oxóssi; o que é um Caboclo de Xangô e quem é Xangô, o que é um Caboclo de Yemanjá e quem é Yemanjá, então uma Cabocla de Yemanjá não é Yemanjá.

A incorporação de Yemanjá é a incorporação de uma natural, aí se diz: incorporou a mãe Yemanjá, o Orixá Yemanjá, não fala e não dá consulta.

 Incorporou, está falando, dando consulta é Caboclo, mas há Terreiros que dizem: “Não, esses são os Oguns”, é a maneira de se relacionar, então não vale a pena discutir sobre a maneira de se relacionar, para nós que estamos estudando sabemos: aquele que fala e dá consulta é espírito humano, então é Caboclo e aí está a diferença do Caboclo Beira Mar para Ogum Beira Mar.

Annapon


(Texto baseado no Curso de Teologia de Umbanda Sagrada – Desenvolvido por Rubens Saraceni – Ministrado por Alexandre Cumino -)