segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Quarup

O Quarup é um ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu, no Brasil. O rito é centrado na figura de Mawutzinin, o demiurgo e primeiro homem do mundo da sua mitologia. Em sua origem o Quarup teria sido um rito que objetiva trazer os mortos de novo à vida.

O mito original[editar | editar código-fonte]

Mawutzinin, desejando trazer os mortos de volta, entrou no mato e cortou três troncos de kuarup, levando-os para o centro da aldeia. Ali os pintou e adornou com colares e penas. Mandou que fincassem os troncos no chão, e chamou duas cutias e dois sapos cururu para cantarem com ele, e distribuiu peixes e bijus para o povo comer.
Incrédulos, os índios não cessavam de perguntar se os troncos iriam mesmo virar gente, ao que Mawutzinin respondia que sim, os troncos virariam gente. Então o povo da aldeia começou a se pintar e gritar. Cessada a cantoria, os índios quiseram chorar junto aos kuarup, pois representavam seus mortos, mas Mawutzinin os impediu, dizendo que viveriam, e por isso não podiam ser chorados.
No dia seguinte o povo quis ver os kuarup, mas Mawutzinin não deixou, dizendo que todos deviam esperar a transformação por mais um tempo. À noite os troncos começaram a se mexer, como se o vento os balançasse, e Mawutzinin ainda não permitiu que o povo os visse. Os sapos cururu e as cutias então cantaram para que assim que virassem gente os troncos fossem ao rio se banhar.
Quando o dia clareou a transformação já era evidente: da metade para cima os troncos já tinham forma humana. Os cantos continuavam, e Mawutzinin ordenou que todos os índios se recolhessem para suas ocas e não saíssem. Ao meio-dia a transformação já estava quase completa, e Mawutzinin chamou o povo para que saísse das ocas e fizesse uma grande festa, com gritos de alegria, mas aqueles que tivessem tido relações sexuais durante a noite não tiveram permissão para sair. Apenas um índio foi por isso impedido, mas não aguentando a curiosidade, saiu também, quebrando o encanto, e os kuarup voltaram a ser madeira.
Zangado, Mawutzinin disse que doravante os mortos não reviveriam mais no Quarup, seria apenas uma festa. E mandou que os troncos fossem removidos e lançados na água, ou no meio da mata, e assim foi feito.

O seu ritual[editar | editar código-fonte]

Seja por sua linhagem seja por sua liderança, e é uma grande honra prestada a esta pessoa, colocando-a no mesmo nível dos ancestrais que viveram no tempo em que Mawutzinin andava entre os homens, e incorporando-a à história mítica.
Tipicamente o ritual inicia com a chegada de grupos de índios de outras aldeias, que ocorre em meio a muitas danças. Depois alguns índios vão ao mato e cortam um tronco de kuarup, constroem uma cabana de palha em frente à Casa dos Homens, e sob ela fincam o tronco no chão. A seguir o tronco recebe uma decoração, acompanhada de cantoria que elogia o aspecto formoso do morekwat (chefe) que está sendo,. homenageado, falando com ele como se se tratasse de uma pessoa viva.
Após estes preparativos, chegam os índios restantes, e acomodam-se na periferia da aldeia. Arma-se uma fogueira em frente ao tronco, sucedem-se danças e cantos, e um índio de cada grupo vai ao fogo recolher uma chama para acender as fogueiras dos grupos.
À noite acontece o momento de ressurreição simbólica do chefe homenageado, sendo um momento de grande emoção. Então as carpideiras começam o choro ritual, sem que os cantos em volta sejam interrompidos. Aos primeiros raios do sol do dia seguinte o choro e o canto cessam, os visitantes anunciam sua chegada com gritos, e iniciam competições entre os campeões de cada tribo, seguidas de lutas grupais para os jovens.
Então o morekwat da aldeia que sedia o Quarup se ajoelha diante do morekwat de cada tribo visitante e, em sinal de boas vindas, lhe oferece peixe e biju, que são distribuídos entre os seus.
Terminadas as lutas ocorre um ritual de troca, moitará, onde cada aldeia oferece produtos de sua especialidade. O ritual é encerrado com o tronco sendo lançado às águas.

Toré

Toré é uma religião ameríndia, na qual as pessoas buscam remédios para as suas doenças, procuram conselhos com os caboclos que baixam. Já o mestre defuma, receita e aconselha. Certamente é o mesmo Catimbó dos arredores das capitais e grandes cidades nordestinas, onde os destituídos da fortuna procuram como oráculo para minorar os penares e desditas.

História[editar | editar código-fonte]

De acordo com Alceu Maynard Araújo, em O Folclore Nacional, volume III, Toré seria o mesmo que Catimbó, Pajelança, Babaçuê ou a Encantaria do Piauí. No vasto Brasil as denominações de uma dança, de uma cerimônia variam de região para região. Em Alagoas, na foz do Rio São Francisco, em Piaçabuçu, Toré é o mesmo Catimbó onde além das funções medicinais fitoterapêuticas são encontrados os elementos fundamentais deste, herdadas do índio: a jurema e a defumação curativa.
No Toré, faz-se a procura do nome da moléstia e adivinhação mágica. Além da defumação usam ervas e dentre elas se destaca a jurema em cujos poderes mágicos os sertanejos acreditam piamente. É, portanto, medicina mágica cujo oficial e executor é o presidente do Toré, também chamado "mestre".
No Toré de Piaçabuçu, os "caboclos" para "baixarem na terrêra", precisam ser chamados na "piana" por meio de um canto, "linho" ou linha e batidas do maracá. O mestre, dirigente do Toré, não usa indumentária especial a não ser um cocá de penas, chamado por ele de "capacete de índio". Os membros do Toré se reúnem às quartas-feiras e sábados, logo após o sol se pôr. É a reunião, a "chamada". Após a reunião em que várias pessoas tomam parte, há uma outra, que é o "trabalho da ciência", assistido por cinco ou seis membros mais importantes, ou melhor, mais adiantados no "trabalho". A este "serviço de mesa" aos não iniciados não é permitido participar, a não ser o que "tem sangue de índio, sangue reá". Há uma outra reunião, às vezes anual, que é a do "banquete dos maracá", "onde só os antigo pode cumê", reservada exclusivamente para os provados frequentadores "filho dos filhos de aldeias". Estas práticas e outros traços culturais deixados pelos índios, como a fitoterapia, podem ser constatados na região do baixo São Francisco.
Uma das características do atual Toré que se relaciona bem de perto com as crenças indígenas é o processo de manifestação dos caboclos no terreiro. São espíritos de vivos que se encontram em aldeias distantes. "Quando são chamados, lá na aldeia onde moram (os vivos) caem em sonolência para poder comparecer onde foram chamados". No Toré não há a invocação de "espírito branco", isto é, espírito de pessoas que morreram. Nisto diferem do Espiritismo, onde invocam o espírito de pessoas que desencarnaram. No Toré, no entanto, descem somente os caboclos e alguns juremados. Juremado é o que está nos ares, quando ainda vivo bebeu jurema ou ao morrer está sob uma juremeira. É um espírito em processo de "caboclização" (santificação), mas não é perigoso como o espírito branco. O juremado pode frequentar aldeias e descer nos torés. Nos torés trabalham somente aqueles que têm sangue de índio. Branco ou negro nele não entram. Os juremados são os que têm sangue índio e tomaram jurema estarão ao pé da juremeira, uma espécie de purgatório católico romano, onde com o auxílio e trabalho dos demais membros do toré poderá tornar-se um espírito benéfico, isto é, um caboclo. Seria uma mistura de crença católica romana, existência de purgatório e espírita, isto é, o desenvolvimento do espírito através da reencarnações, processo da juremação.
O caboclo é chamado no toré através de seu "linho", de seu canto, porém, quando desce um juremado, embora não seja chamado não é repelido porque para ele será feito um trabalho que o aperfeiçoará. O aperfeiçoamento do juremado começa pelo fato de ele ser ir compondo um "linho". O momento que seu "linho" fique conhecido, basta um dos presentes lembrar um pedaço da melodia para que ele se manifeste no terreiro. O juremado tem que ter sangue índio. Branco ou negro que tenha tomado jurema não ficará juremado. "Os mestiços deles com indígenas sim, porque terá um pouco de sangue de índio". Negro e branco quando morrem são espíritos brancos aos quais recusam receber no toré. Para que estes não se aproximem, nas "pianas" colocam flechas, assim o espírito branco não pode chegar. A jurema, árvore sagrada, só será benéfica aos que possuem sangue de índio. Anualmente, um dos membros do Toré, de sangue índio poderá participar da reunião, matecai, na aldeia de Ouricuri, lá pelas bandas de Porto Real do Colégio, como não há mais aldeias de índios nos arredores do Piaçabuçu para lá se dirigia um antigo membro do Toré, hoje falecido.
Outro traço indígena encontrado é a presença de caboclos ou encantados que tem que apresentar a sua coroa, isto é, um feixe de cabelo no alto da cabeça, cabelo duro, estirado de índio. "A pessoa canta quando o encantado baixa nele". "Todos encantado têm que motrá sua coroa". Adianta o informante Durval Farias: "não se pode trabalhá cum nada no bolso e nem nada nos pé, porque quando os caboclinho desce que é sé como era vivo, cum os pé descalço, e nóis arregaça as calça para ela não sujá porque os caboclinho também não querê roupa, tano livre, fica enramado".
O dirigente do Toré é o presidente. Há sempre um ajudante, um acólito. Ao presidente "compete assistir a reunião. Enquanto os outros ficam manifestados, ele fica de lado para evitar atrapalhações, é para evitar os cantadores de linha, isto é, os que cantam e não sabem dar definição do que cantaram. A direção está realmente em suas mãos. Ele é o dirigente.
O presidente, o acólito e demais membros do Toré, de sexo masculino, afirmam não ter contato sexual com mulher nos dias anteriores às reuniões e trabalhos no terreiro. Isto deve ser observado, afirma Artur Francisco da Cruz, para "poder pegar o encanto". Também nesse dia não se pode bebê bebida alcoólica, e é preciso tomar banho. É a ablução, portanto influência moura. Índio também gosta de banho. Facilitou o sincretismo.
No Toré não há indumentária especial. Há apenas o "capacete de índio" que é um cocar que o presidente usa durante os "trabalhos", além disso, coloca a tiracolo um enfeite de penas, tira os sapatos ou "bostocos" (tamancos), dobra as barras da calça até à altura dos joelhos. Os demais colocam um rosário, são os cintos dos meninos, usam dar uma volta só, "apoiado", isto é, a tiracolo. O rosário de duas voltas é nagô de Candomblé, por isso cuidam dar uma "volta só pra os caboclinho". Os que recebem o encantado, colocam antes o rosário apoiado (a tiracolo), defesa para não receber espírito branco que às vezes pode querer se manifestar, zombando mesmo das flechas que estão sobre a piana. Estes podem entrar pelas "esquerdas", daí não permitir sua entrada.
Antes das perseguições dos "perna preta" (soldados da polícia) o Toré era realizado no terreiro, ao ar livre, num espaço entre a porta da casa e um cruzeiro. Atualmente, a reunião se faz no interior da casa. Num canto da sala há uma mesa coberta por um dossel onde predomina a cor vermelha e há enfeites de papel de seda. Este conjunto, mesa e sobrecéu, é chamado "piana". Sobre a mesa há uma tábua onde estão riscados o signo de Salomão (aqui é um estrela de sete pontas) e uma cruz. Uma "campa de campos verdes", isto é, uma sineta, um cachimbo, "gaita", para defumação, um maracá, três velas cada qual pertencendo a um guia: Cruz Roxa, Serra Grande e Zé de Lacerda, uma vela de juremado que queima e não deixa cair pingo. Há um copo d'água que é a vitrina, charutos, azeite de dendê, mel de abelha, duas estatuetas de barro de índios com flechas, jurema, latinhas contendo pó de jurema, fumo, incenso, benjoim e alecrim queimados no "gaita" (cachimbo) para a defumação. Pregado no dossel há santos "em registro" (gravura) de São Jerônimo, Santa Bárbara, Santo Onofre, São Cosme e Damião, Senhor do Bonfim, São Jorge, Santa Teresa, Santo António de Lisboa (que é do imperador e depende da pedra), Padre Cícero, um retrato de Allan Kardec e um quando onde se vê a artista de cinema Maureen O'Hara, num filme no deserto, dizendo o informante que ela é de outra "aldeia", e um crucifixo. Sob a piana há uma vela acesa, é "a vela que dá firmeza aos trabalhos".

O trabalho[editar | editar código-fonte]

Para ter início o "trabalho", nome que dão à reunião, o presidente aproxima-se da mesa, sobre a vitrina (copo d'água) coloca sete pingos de vela "que é o traço que representa a cruz do Cristo. Outra vezes, coloca coloca pingos na vitrina para formar a coroa de São Jorge. No Toré há o pedido do auxílio de Jesus e dos Santos, ao passo que no Candomblé não. No Toré, ouvem-se muitas frases correntias no culto católico romano, no Candomblé não.
O presidente observa na vela que é para o Ogum de Ronda, e o semblante da vela é que dá o sinal do que vem para enramar se é contra ou a favor. Isto é preciso porque de vez em quando aparece um espírito branco, com o qual precisam ter cuidado. Atira um pouco d'água de uma quartinha sobre a piana, reza um Padre-Nosso, uma Ave-Maria, uma Salve Rainha em intenção dos bons trabalhos, persigna-se e começa a cantar:
  • "Em campos verdes (bis)
  • ó meu Jesus (bis)
  • Em campos verdes (bis)
  • ó meu Jesus (bis)
  • Madalena baixada
  • aos pé da cruz,
  • rezando este bendito
  • implora a Jesus."
Enquanto cantam, dançam com o corpo curvado, ficando o tronco quase horizontal ao solo. Cantando fazem o sinal-da-cruz, benzendo-se:
  • "Abre-te mesa, em campos verde,
  • Cruzêro, cruzêro divino,
  • Com as forças de Santa Barba
  • e os de sino meu pai Sinhô,
  • Jesuis Sinhô, Pai Criadô
  • em tronco de Jurema
  • sinhores mestre confessô
  • abrindo os tronco da Jurema".
Balançam os maracás na altura da cabeça. No Toré não há a presença de membranofônios como acontece no Candomblé. Ali está presente o indiofônio herdado dos índios, maracá (mbaracá dos guaranis) que acompanha alguns dos cantos. Quando algum caboclo está relutando em baixar, o maracá é tocado com mais intensidade e mais próximo do ouvido da pessoa que irá receber o "encantado". Ele mesmo balança o maracá, tirando som e dando ritmo. A parte agógica inicia do moderatto quase alegretto até alcançar o vivace. Na dinâmica começa num pianíssimo crescendo até o forte. E o canto continua com outra melodia:
  • "Santo António de Lisboa
  • que morô no imperadô
  • que no dia vinte e nove
  • mucho coró me custô
  • abre campana das campinas azu
  • os caboclo de Jurema
  • vem guiado por Jesuis."
Cantam com a sineta na mão. Entre um canto e outro, o acólito faz soar a sineta como se faz na hora da consagração da missa católica romana. O som das sinetas, sinos e campanas, desde a Idade Média, acreditam ter o poder de afastar o demônio. Por isso permanecem nos cerimoniais religiosos.
  • "Malunguinho, ó Malunguinho
  • caboco índio reá
  • com as forçade sinhá luxa
  • e o nosso Pai Celestiá,
  • abre as as porta qu'eu te mando
  • sete pedra imperiá,
  • com a força de Salomão
  • nosso pai celestiá."
Malunguinho é o dono da chave, o que abre os caminhos, sua presença é necessária. Com este caboclo presente para abrir as portas da jurema, para abrir os caminhos e portas da direita (lado bom) e fechar o da esquerda, por onde podem penetrar os maus, se dá, no Toré o sincretismo com as forças católicas representadas em Santa Bárbara ao abrir a mesa e Malunguinho, uma espécie de ligação entre os espíritos e os que ali estão presentes, é a ponte sobrenatural, mágica. Será Malunguinho uma espécie de acólito ou de sacristão que auxilia no cerimonial? Ele é o "caboclo índio reá", isto é, índio verdadeiro.
Ao terminar este canto, o contramestre do Toré, que está com a palma da mão direita na água que foi espargida da moringa sobre a mesa, acaba caindo em transe. O presidente diz que seu auxiliar ficou "enramado" e o caboclo que baixou é Pedra Roxa. O "encantado" diz: "meu dengo, meu coró". O presidente propicia jurema ao caboclo que baixou bebendo-a com indizível prazer. A seguir pede o "meu gaita", isto é, o cachimbo. Vai ter início a defumação.

A defumação medicinal[editar | editar código-fonte]

No fornilho do cachimbo são colocados pedaços de folha de jurema, tabaco, alecrim, incenso. Aceso o cachimbo, é colocado ao contrário na boca do contramestre. Na boca coloca o fornilho, assopra, fazendo a fumaça sair pelo canudo (cânula) do "gaita". A defumação é feita primeiramente da cabeça, desta para os pés, depois braço direito, a seguir esquerdo, parando mais tempo na esquerda, por onde podem entrar os maus. Vira depois o defumado e faz as defumações pela frente da cabeça aos pés. Em algumas pessoas, o presidente, depois de defumado pelo auxiliar, pega nas mãos e dá três puxões para baixo. A defumação é um processo de cura e também para livrar de maus-olhados, função preventiva e curativa.
Ao defumar uma pessoa não lhe é permitido ter os pés calçados e deve também desmanchar os cabelos. Desceu um caboclo, e ao defumar o pesquisador disse: "Os bostocos". Imediatamente o presidente esclareceu que era para ficar descalço, pisando no chão: - "O chão é sagrado, só se pisa nele com os pés descalços", disse mestre Artur. Tal ordem é idêntica à: "Solve calceamentum de pedibus tuis lucus enim, in quo stas, terra Sancta est."
Cantou-se o "linho" de Pedra Roxa e o caboclo se retirou, ficando o aparelho que o recebeu com os braços para cima. Assim é preciso disse o presidente, para que ele siga o caminho dos ares para chegar em sua aldeia.
O "linho" cantado:
  • "Vamo apanhá
  • a cinza Roxa
  • interêco,
  • corta pau, machadim,
  • tira o mé,
  • esta é a abelha uçu
  • esta não é."

Pajé


Pajés guaranis em dança festiva, em 2007.
O pajé ou pagé[1] é uma pessoa de destaque em certas tribos indígenas da América do Sul. São curandeiros, tidos como portadores de poderes ocultos, ou orientadores espirituais.

Terminologia[editar | editar código-fonte]

Segundo o dicionário Aurélio, é uma palavra de origem tupi, adotada como termo das disciplinas de antropologia e etnologia brasileira. Designa o especialista ritual que, nas comunidades indígenas brasileiras, tem a atribuição ou o suposto poder de comunicar-se com as diversas potências e seres não humanos (espíritos de animais, de pessoas mortas etc.). Tem, como sinonímia, os termos: xamã, manda-chuva, benzedor e curandeiro. Outras terminologias se aplicam: caraíbas, paié, pagi, pay, payni, pai.[2] [3]

Funções[editar | editar código-fonte]

Assim como os xamãs, podem assumir o papel de médicos, sacerdotes e fazer uso de plantas para fins medicinais ou invocação de entidades. Normalmente, o conhecimento da utilização da planta correta para cada caso ou situação é passado de geração em geração, trazendo, assim, uma responsabilidade para o pajé da tribo. Alguns índios acreditam que os pajés têm ligações diretas com os deuses, sendo representantes escolhidos pelos deuses para passar a profecia ao povo.[2]

Pajelança[editar | editar código-fonte]

A Pajelança ou Cura diz respeito a um sistema médico-religioso praticado na região amazônica, no qual se recebem entidades chamadas de encantados. O curador ou pajé entra em transe, identificando o mal que acomete a pessoa que buscou ajuda, e prepara medicamentos naturais para o tratamento das enfermidades. Com a chegada dos negros na região, ritos africanos e indígenas foram mesclados, em especial no Maranhão e no Pará, influenciando religiões sincréticas como o tambor de mina, o terecô e o babaçuê

Jurema (bebida)


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Jurema-preta (Mimosa hostilis ? ).
Jurema é um conjunto de beberagens feita com partes de árvores de mesmo nome. A jurema apresenta representações que variam em cada um dos espaços sociais, entretanto sempre se referenciando a uma força espiritual única, mesmo em sistemas onde não há bebida.[1] Era a bebida sagrada que os pajés indígenas faziam, servida em reuniões especiais. Após a colonização e até o século XIX beber jurema era sinônimo de feitiçaria ou prática de magia, sendo que muitos índios e caboclos foram presos acusados de praticarem o "adjunto da jurema". Clarice Mota postula a existência de um complexo da jurema como um grupo de representações que não apenas incluem plantas de nome Jurema, mas as concepções existentes em torno delas, sendo uma demonstração das misturas culturais que ocorrem no país, de forma que a Jurema possui muitas faces.[2][3]
Segundo Carlos Estêvão que visitou os Pankararús[4] de Brejo dos Padres em Tacaratú Pernambuco, 1936 [5] O preparo da Jurema ocorre da seguinte forma: Raspada a raiz, para eliminação da terra que, porventura, nela esteja agregada, em seguida é colocada sobre outra pedra e macerada. Quando a maceração está completa, bota-se toda a massa dentro de uma vasilha com água, onde a espreme com as mãos. Pouco a pouco, a água vai-se transformando numa infusão (golda) vermelha e espumosa, até ficar em ponto de ser bebida. Pronta para este fim, dela se elimina toda a espuma, ficando, assim, inteiramente limpa. Ao ficar nesse estado, o mestre cerimônia acende um cachimbo tubular, feito de raiz de jurema, e, colocando-o em sentido inverso, isto é, botando na boca a parte em que se põe o fumo, assopra sobre o líquido da vasilha fazendo com a fumaça uma figura em forma de cruz e um ponto em cada um dos ângulos formados pelos braços da figura.
O pernambucano Gonçalves de Lima, em 1943, foi o primeiro a determinar a presença de um alcaloide que designou como "nigerina", (atualmente conhecido como Dimetiltriptamina - DMT) no Ajucá, ou Vinho de Jurema, preparado pelos índios Pankararu com a planta Jurema-preta.[6] Em pesquisa aos índios Xucuru de Ororuba identificou a preparação do veuêka, hidromel fortificado com cascas da Jurema-preta. O hidromel anteriormente empregado pelos indígenas na preparação da bebida foi substituído pela aguardente de cana e também pelo mel industrializado.[7]
Rituais que incluem a ingestão da bebida preparada com a jurema são praticado por remanescentes indígenas no Nordeste do Brasil, apesar do processo de integração à sociedade nacional e do histórico combate pela colonização católica, através da inquisição e da perseguição policial como referido. Podem ser identificadas como etnias indígenas que utilizam a Jurema em seus rituais: Kiriris, Tuxás, Pankararé no Nordeste; Tupinambás de Olivença – Sul da Bahia; Atikun, Fulniôs, Kapinawá[8] e Xucuru-kiriri em Pernambuco, Kariri-xocó de Alagoas e os Xocós de Sergipe [3][9]
Para entender o efeito da jurema não basta apenas analisar a composição molecular e compará-la com as denominadas drogas alucinógenas, é necessário situar-se no contexto de expectativas e formas de uso da substância, ou seja, os mitos ou crenças a seu respeito. Não há dúvidas, porém, por semelhança dos relatos de seu efeito, da identificação deste com as descrições de possessão divina e êxtase religioso e o efeito psicodélico de manifestação de divindade, como sugere o nome enteógeno em sua classificação mais recente. A Jurema-preta possui em sua composição um dos mais potentes ecodélicos, a Dimetiltriptamina, substância também produzida pelo corpo humano em situações de nascimento, morte, quase-morte, contatos místicos espontâneos, profecias e sonhos, necessária ao funcionamento normal do corpo humano.[10][11] Nesse sentido, Strassman ao comparar as profecias da Bíblia Hebraica com as características subjetivas da DMT encontrou semelhanças e diferenças fundamentais, elencando pontos de encontro à DMT produzida pelo corpo humano e as profecias. Apesar Dmt não ser eliciadora da glória divina (kavod[carece de fontes]), mas facilitar a prontidão, é através de um processo educacional de desenvolvimento da racionalidade (que ocorre durante a experiências do cotidiano), juntamente com o desenvolvimento da imaginação e estética (que ocorre pelo êxtase) que se pode localizar revelações genuínas. A partir disso ele propôs um modelo Teoneurológico (em contraposição ao modelo neuroteológico), sendo o cérebro um receptor do efluxo divino e não criador deste.[11] Camargo explica que "ao tratar-se das bebidas rituais, não se pode, todavia, descartar o forte vínculo existente entre plantas psicoativas e os transes místicos ou de possessão, na vida religiosa do homem desde tempos pretéritos, tal como existiu entre povos primitivos em diferentes partes do mundo". As bebidas rituais indígenas, no Brasil, têm registros que remontam a vários séculos e que tais bebidas variavam segundo as diferentes culturas e regiões onde ocorria o consumo das mesmas, sempre em cerimônias de caráter mágico-religioso.[12] Nascimento escrevendo sobre os Kiriris refere-se aos "Encantados" e esboça uma classificação de seus rituais como: "Ouricuri", "Praiás" e "Torés". [13]
Tanto o habito de fumar como de ingerir a bebida, foram incorporados a rituais de origem e influência africana, a exemplo do candomblé, umbanda, catimbó e jurema, sendo que os dois últimos apresentam marcantes influências indígenas.[12] Segundo Assunção [14] que estudou a Jurema na umbanda nordestina, as entidades espirituais identificadas como pertencentes ao universo da "jurema" são caboclos, índios e mestres. Uma caracterização de entidades (como "Mestre Carlos" e outros mestres, caboclos e índios como "Pena Branca", "Arranca Toco", "Sultão das matas" e da própria "Cabocla Jurema") é essencial para compreender o direcionamento desse efeito . Um avaliação destas características bem como dos contextos sociais da umbanda e catimbós ou candomblés de caboclo e seus sistemas de crença precisa ser considerada conjuntamente com seu efeito a partir da ação de alcaloides encontrados nos vegetais utilizados na composição das bebidas, tais como o DMT - Dimetiltriptamina ativado ou desativado por distintas combinações farmacológicas. Assim, "quando se trata de enteógenos, não se deve maximizar excessivamente as propriedades farmacológicas das plantas, mas perceber que estas são veículos do contato com um mundo transcendental perceptível somente através da experiência mística. Há que se considerar suscetibilidades individuais, culturais, psicológicas, bioquímicas etc para o êxtase." [15]
Assunção[14] pondera que, se um processo de simbolização progressiva que ocorre com a planta jurema e com as demais plantas medicinais substituindo o uso real ao ponto de não mais saber sequer reconhecer, no caso, a jurema verdadeira, como em alguns centros de umbanda, desta forma, o que justifica a permanência do símbolo Jurema? Segundo ele, nesse processo a umbanda procurou absorver o conteúdo simbólico/sagrado existente na "jurema" e nos catimbós, o saber sobre o mundo vegetal, suas propriedades e o poder tradicional de cura. Ao analisar o Vinho de Jurema empregado em rituais afro-brasileiros, Camargo verificou que ele vem sofrendo substanciais transformações, quando comparado ao Ajucá dos antigos índios do sertão pernambucano. Com respeito aos ingredientes empregados na preparação do Vinho sabe-se que este, a partir do momento que se expandiu do ambiente indígena para novos ambientes onde a bebida impõe seu valor sacral, outros ingredientes foram acrescentados. Foram encontradas aproximadamente 23 espécies que podem ser entrar na preparação desta bebida, nas religiosidades afro-brasileiras, que leva além de cachaça, vinho tinto e mel. Dentre as plantas citam-se pela frequência nas receitas a canela, o cravo-da-índia e o gengibre. Dentre outros aditivos citam-se espécies psicoativas como o paricá, manacá, cola, noz-moscada e destaque para o dandá ou junçá permitindo potencialização da bebida.[7]
Mota explica que na última década do século XX, devido às mudanças sociais decorrentes da urbanização, a Jurema se transformou e ganhou novos propósitos além dos que já possuía em território nacional, apresentando uma nova "face".[2] A Jurema foi adicionada à beberagem conhecida como daime, em rituais específicos,[16] bem como também foi reinventada e preparada com Peganum harmala, como uma substância transmutada em similaridades à ayahuasca,[17] mas com características muito fortes típicas dos encantos da Jurema.

Adjunto da jurema

Adjunto de Jurema é um dos nomes pelos quais foram descritos historicamente rituais que faziam parte do hoje chamado "complexo ritual da jurema".
Indígenas que habitam o Nordeste brasileiro preparam uma bebida especial, sagrada, utilizada em rituais mágico-religiosos, bebida feita com partes da planta de mesmo nome - Jurema -, acrescida de outros elementos de origem vegetal. Tal bebida favorece a obtenção do transe místico durante rituais que no século XVII é XVIII eram chamados "adjunto de jurema" (uma dança coletiva Tupi, segundo Luís da Câmara Cascudo, no livro Meleagro).
O folclorista Luis da Câmara Cascudo, na página de seu Dicionário do Folclore Brasileiro (Rio de Janeiro. Ed. Ouro. 1969) assim se refere ao “ADJUNTO DE JUREMA” no corpo do seu verbete sobre “ADJUNTO”: "(...) No Rio Grande do Norte, até fins do séc. XVIII, teve acepção de reunião de conluio, ajuntamento ilegal para prática reprovada. Nesse documento que descobri no arquivo da Catedral de Natal, vê-se que o defunto era criminoso por ter participado de um adjunto de jurema, palavra que encobria um ato de rebeldia religiosa dos indígenas, reavivando sua perdida religião: "Aos dois de junho de mil setecentos e cinquenta e oito anos faleceu da vida presente Antônio, índio preso na cadeia desta cidade, por razão do sumário, que se fez contra os índios da aldeia de Mepibu, os quais fizeram adjunto de jurema, que se diz supersticioso; de idade de vinte e dois anos, ao julgar, e pouco mais, ou menos; faleceu confessado e sacramentado; foi sepultado no adro desta Matriz de Nossa Senhora da Apresentação da Cidade do Natal do Rio Grande do Norte; foi encomendado pelo Reverendo Coadjutor João Tavares da Fonseca; e pelo seu assento fiz este, em que por verdade me assinei: Manuel Correia Gomez, Vigário." (pg.37) [2] (grifamos).
No ano de 1742 é descrito numa denúncia ao rei de Portugal o ritual da Jurema praticado pelos índios Sucuru e Canindé aldeados na Missão da Boa Vista no Brejo Paraibano:
... uzão dehuma bebida de huma rais que chamão Jurema; que transportando-os do seu Sintido ficão como mortos, equando entrão emSi dabebedeira, Contão as vizoens que o diabo lhes Reprezenta, Senão he que emSpirito os Leva as partes deque dão noticia. (CARTA do capitão-mor da Paraíba, Pedro Monteiro de Macedo ao rei D. João V. 1742, setembro, 22, Lisboa. AHU_ACL_CU_014, Cx. 11, D. 966.)
O mesmo autor (CASCUDO), em seu “Meleagro: pesquisa do Catimbó e notas da magia branca no Brasil” ( Rio de Janeiro: Ed. Livraria Agir. 1978) mais uma vez se refere a tais reuniões praticadas pelos índios como "Adjunto de Jurema":
“Os indígenas, catequizados por fora, ficaram por dentro com sua crença. E, quando possível, satisfaziam o ritual defeso, dançando a dança de Jurupari ao som dos maracás e roncos dos instrumentos sagrados [...]. Uma festa secreta dessa indiada, no século XVIII, dizia-se "adjunto de jurema". Adjunto é reunião, sessão, agrupamento. Faziam a bebida com a jurema e bebiam-na no meio de cerimônias que não deixaram rasto. Era remédio, alegria, desabafo e sublimação. Bebiam, sonhavam, amavam. Pensam todos que as festas valiam o atrevimento inaudito da realização clandestina [p. 27-28].”[3] (grifamos)
Segundo Estêvão, 1936 que visitou os Pancararús de Brejo dos Padres em Taracatú, Pernambuco , a festa da jurema ou do ajucá é essencialmente religiosa e de caráter reservado, nem todos os habitantes da aldeia podem a ela comparecer. Iniciava-se após o preparo da jurema, sentados em círculo onde bebia-se o preparado da jurema colocado no centro do círculo e fumava-se os cachimbos acesos pelo chefe e dois de seus assistentes, que passavam de mão em mão até correr toda roda, nas palavras de Estevão: "Quando voltaram aos donos, uma das cantadeiras, tocando o maracá, principiou a cantar. Era uma invocação a Nossa Senhora, na qual se pedia paz e felicidade para a aldeia. Depois, vieram as toadas pagãs dirigidas aos encantados. De vez em quando, no decorrer da cantiga, ouviam-se, porém, os nomes de Jesus Cristo, Deus, Mãe de Deus, Nossa Senhora, Padre Eterno e, às vezes, também, o nome do padre Cícero."[4]
Contemporaneamente, no contexto do neoxamanismo, neopaganismo, umbanda, catimbó, esoterismo e outras manifestação espiritualistas e/ou religiosas, alguns grupos e agremiações adotaram a denominação "ADJUNTO DE JUREMA" para suas práticas ou reuniões envolvendo o consumo cerimonial da ancestral bebida à base de Jurema: Há vários exemplos.
Já o termo Adjunto da Jurema (usando o conectivo "da" ao invés do "de"), é um nome próprio que se refere a denominação de um dos (acima referidos) grupos que fazem parte do atual "complexo ritual da jurema" e que consagra em seus rituais a bebida sagrada a que eles chamam AJUCÁ : trata-se do "ADJUNTO DA JUREMA - ORDEM DA JUREMATAIA" , de orientação voltada ao esoterismo cristão, e que adotou essa denominação como nome próprio de sua agremiação, apresentando-se oficialmente como "Adjunto da Jurema, ordem adjunta sob os auspícios da ORDEM DA JUREMATAIA

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Igba oxosse

Assentamento de Oxosse. No candomblé do Ile Ase Ijino Ilu Orossi.
Igba oxosse ou assentamento de oxosse como é chamado popularmente pelo povo de santo, são construídos de duas formas, todavia as duas formas são semelhantes no que se refere a um artefato de ferro em forma de arco e flecha denominado de ofá e um otá de cor escura.

Diferença[editar | editar código-fonte]

O ofá é fixado numa haste do mesmo metal, com base arredondada para que o conjunto possa ficar em pé dentro de uma alguidá ou qualquer outro recipiente de barro. A grande diferença é que alguns assentamentos são confeccionados com uma mistura especial de argamassa, contendo vários elementos do reino animal, vegetal e mineral como folha sagrada, oguê, iruexin, rabo de tatu, chifre de veado e o ofá fixado nesta mistura sagrada.
Nota: Todos assentamentos "igba orixá", devem ser preparados e sacralizados em rituais próprios por Babalorixas ou Iyalorixas. Na preparação de qualquer assentamento de orixá os rituais da sasanha, folha sagrada e água sagrada são imprescindíveis.